terça-feira, 6 de abril de 2010

Projovem Urbano Palhoça/SC


Foi com muita curiosidade que me candidatei a uma vaga de educadora para trabalhar em Palhoça/SC. Depois de alguns anos afastada das salas de aula, vislumbrei a possibilidade de retomar um antigo sonho: ensinar inglês para adolescentes.

Fiz um curso de formação inicial para conhecer o Projeto e me preparar para as atividades. Nessa formação fui me encantando com cada informação nova sobre o programa, era exatamente o que eu buscava, da forma que gostaria de trabalhar, com material didático muito interessante e principalmente com o objetivo do programa: incluir jovens que, por diversos motivos, não concluíram a formação básica. Jovens que, tinha eu a certeza, esperavam por uma oportunidade de retomar os estudos e conquistar um item muito importante para resgatarem a oportunidade de uma vida digna, com maiores possibilidades de desenvolvimento pessoal e profissional.

Confesso que, na noite anterior ao início das aulas, nem dormi, tinha uma grande expectativa acerca dos meus novos alunos, das pessoas que iria encontrar, das suas histórias e sonhos. Sabia que aquele 06 de abril de 2009 estaria marcando um novo momento em minha vida, pois a maior riqueza que um ser humano pode ter é a oportunidade de compartilhar experiências com tantas outras pessoas. Se a minha vontade em ensinar, motivar e mostrar que é possível era grande, maior era o universo que eu estaria me deparando.

Com grande suspense cheguei ao colégio ao qual fui designada, Venceslau Bueno e fui um das primeiras a chegar. Deparei-me com um prédio antigo, mas muito bem conservado, excelentes instalações, muito limpo e descobri ser esta escola a primeira do município de Palhoça. Minha emoção aumentou, pois lembrei-me de meu avô materno, o primeiro professor do município de Fraiburgo,SC. Senti-me mais inspirada, pois além de professor ele ajudou a construir a escola física e na hora fiz uma comparação com a sua história, eu provavelmente também iria construir algo ali naquele velho colégio.

Mas uma grande surpresa me aconteceu, não haveria aula. A direção da escola disse que não sabia exatamente o que faríamos ali, eles não estavam preparados para nos receber e precisavam se interar sobre alguns aspectos e naquela noite o colégio fecharia às 19:30. O ar me faltou por alguns instantes, como aquilo poderia estar acontecendo? Afinal, eu havia me preparado e criado tantas expectativas sobre aquele primeiro encontro! E fiquei imaginando que aquele sentimento estaria também com os jovens. Foi um balde de água gelada. Mal sabia eu que aquele era o primeiro de muitos “nãos” que o Projovem Urbano receberia na sua trajetória. Eu não via um sorriso, um seja bem vindo por parte daquela escola, um local com profissionais de educação pós-graduados outros até mestres. Deparei com um “doutor” em educação discriminando nossos jovens, com medo que eles estragassem o colégio, ou roubassem alguma coisa, pois, eles eram ( isso o educador dizia) filhos de bandidos, traficantes conhecidos na cidade e ele não podia permitir a permanência desse tipo de gente na escola. Listou também uma série de motivos para não abrirem a escola no período noturno. Seria muito perigoso.

Perigoso porque muitos homens como ele não dão a mão a quem precisa, não mostram um caminho diferente, não os aponta uma direção para serem diferentes, para saírem da “marginalidade”, não mostram uma possibilidade de transformarem a sua vida e, consequentemente, o mundo.

Esse educador não conhece nossos jovens como eu, que encontrei numa das salas um rapaz “analfabeto”, mas que sempre repete as frases que eu ensino em inglês, esse rapaz sabe dizer boa noite, como vai você, prazer em conhecê-lo e não sabe que o sonho desse rapaz é trabalhar num computador e também não viu o brilho desse olhar ao me contar isso. Ele não conhece a garota que tem uma vida difícil, que sempre foi renegada pelo pai, mas que tem um coração enorme e dois filhos e me disse que estuda porque vai dar aos filhos tudo o que o pai dela sempre lhe negou: amor e estudo. Tem uma aluno que “eficiente” que precisa de duas muletas para chegar ao colégio e leva quase uma hora da sua casa até lá. É dedicada, tem uma letra linda e tem muitos planos para o futuro. Outros deles trabalham muito, mas tem disposição e coragem para irem para a escola, ficam felizes em poderem estar lá estudando, mesmo cansados do trabalho sujo e pesado durante o dia. Tem muitas mães que levam seus filhos juntos para que não fiquem sozinhos em casa. Recebo quase todo dia um desenho ou um bilhetinho carinhoso das crianças, sempre próximas a suas mães.

Lembro também da moça, tão linda, participante das aulas, mas que , na saída da escola, tem um companheiro que a leva para “fazer a vida”, pois assim alimenta sua família.

Hoje, o programa completa um ano e eu sabia e continuo com a certeza, meus dezoito meses no Projovem valerão por todos os cursos daquele “doutor” e por muitos outros mais. Meu currículo acadêmico poderá ser pequeno diante do dele, mas a minha vida estará repleta de outras vidas, de muitos jovens cheios de sonhos e de planos, os quais tenho certeza que serão alcançados e sempre renovados. Para nós nunca faltarão sonhos, mesmo que encontremos portões fechados!

sábado, 27 de março de 2010

Sapatos


Numa tarde de inverno, saí da sala de aula na ESAG/UDESC para tomar um café, pois fazia frio e o sono me rodeava.

No corredor, deparei-me com um par de sapatos lindos, modernos e elegantes. Meus olhos se fixaram neles me deixando envergonhada. Fui até a cantina, pedi meu café e comecei a tomá-lo, mas não conseguia deixar de pensar naquele par de sapatos tão lindos. Voltei e , ai sim, observei de longe quem os usava: uma jovem, esguia, elegante e com um sorriso brilhante. Andei mais lentamente, pois queria observar os detalhes daquele par de sapatos.

Voltei a sala e , imediatamente, comentei com uma das colegas que tinha visto aquele tal sapato. No intervalo, a moça continuava no corredor e pudemos, eu e minha amiga, observar novamente o interessante par de sapatos.

Eu sempre gostei de sapatos, e comprava muito mais do que meus pés tinham tempo de usar, até que numa mudança, perdi todos eles, na época uns 25/30 pares, adquiridos ao longo de vários anos. Depois disso, fiquei temerosa em adquirir tantos e depois ter que me separar deles. Mas tenho que voltar ao par a que me referi antes.

Alguns meses se passaram e no início de mais um trimestre de aulas, ao entrar na sala deparo-me com a tal moça do par de sapatos que tanto me impressionou.

Seu nome, Vanessa Tobias, na época, mestranda em Marketing na Esag/UDESC e que seria nossa professora na matéria Empreendedorismo. Dona de uma presença marcante, trouxe à nossa turma Sênior toda a sua juventude, despertando a nossa motivação, nos fazendo enxergar novas perspectivas profissionais e pessoais e nos fazendo perceber as oportunidades que se apresentam em nossa vida diariamente e que, muitas vezes, não aproveitamos. E qual não foi a minha surpresa quando Vanessa disse que o tema de sua dissertação de mestrado era Sapatos: Sobre o investimento que nós mulheres sempre fazemos em sapatos, a variedade que compramos, pois a qualquer momento podemos precisar daquele par e tantos outros fatores que nos levam a adquiri-los. E conforme suas próprias palavras “ Um sapato só é perfeito, para fazer parte de suas coleções, se conferir todo o valor que a mulher busca – status, beleza, poder, conforto e autoconfiança” . Assisti também a sua defesa da tese onde pude , mais uma vez comprovar a sua competência e brilhantismo.

Então, resolvi aqui deixar esse depoimento, em gratidão ao seu apoio, vitalidade e com o desejo de que sempre tenha muito sucesso e continue alimentando dessa forma as pessoas que passam pelo seu caminho. MUITO OBRIGADA!